As professoras Mª Ximena Vázquez (Escola Politécnica e de Artes) e Nágila Ibrahim El Kadi (EFPH) foram reconhecidas no Concurso de Narrativa Curta e Poesia 2026, promovido pelo Sinpro Goiás. A cerimônia de premiação ocorreu na última sexta-feira (10/04), à noite, na sede do sindicato.
Mª Ximena Vázquez conquistou o 3º lugar na categoria poesia com o texto "Espiral", enquanto Nágila Ibrahim El Kadi ficou em 4º lugar na categoria crônica, com o ensaio "Sala de Aula: uma aprendizagem do humano!".
A iniciativa valoriza a produção literária de docentes e reforça o papel da escrita como espaço de reflexão sensível sobre a experiência humana, a educação e a sociedade.
A seguir, leia os textos premiados:
Espiral
Maria Ximena Vázquez Gonçalves
Pelas voltas que a vida dá
vou me desfazendo, fazendo e revivendo
Vivendo verdades
e construindo laços e abraços
Limpando espaços e abrindo portas me vejo no centro do lado de dentro
Me lapido de fora dando mais uma volta
Me encontro quando me escondo
Desabrocho quando a lágrima cai
e me enraizo enquanto o tempo me faz
((Amor))te me assusta
e mostra que a sorte é ((par))te da vida que sussura e suspira
Traz pro seio do ((ser)) a essência de ((deus)) e a doce cura que cora
e mostra o caminho da ((paz))
Sala de Aula: uma aprendizagem do humano!
Nágila Ibrahim El Kadi
Sala de Aula: uma aprendizagem do humano!
Nágila Ibrahim El Kadi
“Tudo que é humano me comove, porque sou homem. Tudo me comove porque tenho, não uma semelhança com ideias e doutrinas, mas a vasta fraternidade com a humanidade verdadeira”. (Álvaro de Campos)
No idioma árabe, insán, aquele que esquece, é a palavra usada para designar o ser humano. Do que o ser humano se esquece? Do que e de quem uma sociedade baseada na competição, na correria, na falta de tempo, faz o homem se esquecer? Olá! Como vai? Eu vou indo. E Você? Tudo bem? Tudo bem. Eu vou indo correndo pegar meu lugar no futuro (...) me perdoe a pressa. É a alma dos nossos negócios ou não sei de quê. Eu, também, só ando a cem(...) quando é que você telefona? Precisamos nos ver por aí. (Sinal Fechado, Paulinho da Viola,1969). Essa música feita há 37 anos atrás, no contexto da ditadura militar guarda, ainda a sua atualidade, no que se refere à correria e à ansiedade. Várias vezes, quando pergunto; olá! como vai? Escuto a resposta: na correria!
A aceleração do tempo imprimida, em parte, pela inserção de novas técnicas e tecnologias na produção de bens e de serviços, transbordou para nossa vida íntima e cotidiana. A correria é o novo modus operandi de viver a vida. Na sociedade onde a pressa dá o tom, tudo é fast, fast food, fast escova, fast sexo, fast conversa via zap, all is fast, o homem se esquece da sua humanidade, e torna-se outro, um alienus. Talvez, uma das tarefas mais desafiadoras da educação seja a de recordá-lo de sua humanidade. Etimologicamente, recordar, em latim, recordare, significa passar de novo pelo coração. Esse era considerado o lugar da memória, na Antiguidade, lembrando-nos da importância dos afetos na nossa vida e na memória. A memória é seletiva. O afeto é um dos filtros pelos quais é decantada, em parte, a nossa experiência de vida, a nossa aprendizagem do humano.
A docência foi o meu lugar, por excelência, de aprendizagens do humano, exercida durante 31 anos e 8 meses, ministrando a disciplina de Sociologia, em vários Cursos de Graduação da PUC Goiás, contribuindo para a formação humanística de nossos alunos. Vários alunos dos cursos de Engenharia e de Ciências Aeronáuticas queixavam-se e perguntavam: para quê Sociologia?
Pois é, Seu Zé! Parodiando Drummond, trata-se de uma rima e não de uma solução. Nesse sentido, um grande desafio é esse de conseguir encantar ou de reencantar a nossa não condição humana, em tempos, assustadoramente, sombrios! Além disso, o fato de fazer ver com novos olhos, possibilitados pela perspectiva sociológica, o nosso cotidiano, as nossas relações familiares, profissionais. Assim, mais do que isso, ver e compreender o lugar de cada indivíduo e seu endereço no mapa social. A Sociologia é o GPS social (Sistema de Posicionamento Global) ensinando e fazendo cada pessoa compreender e confirmar, segundo o dizer de Ortega y Gasset: “eu sou eu e minhas circunstâncias”.
O ser humano nasce em e de uma relação social, em um contexto sócio-histórico. O fato de ter nascido em determinadas circunstâncias condiciona, modela, em parte, sua subjetividade. Ademais, as expectativas preexistentes ao nascimento de um indivíduo, a maneira como ocorreu sua socialização em casa, na escola e em outros ambientes, as relações sociais, os vínculos afetivos (des)construídos, a percepção social, impactam na sua autopercepção, na sua identidade. Tudo isso junto e misturado permeia a história de vida de cada ser humano. Então, cada pessoa é predeterminada pela sociedade? Há aqueles que defendam esse ponto de vista. No entanto, como o ponto de vista é apenas a vista de um ponto, pensando com Leonardo Boff, tem-se outras perspectivas sociológicas, nas quais o indivíduo, ainda que condicionado, socialmente, por ser alguém fadado à liberdade, constrói e pode ressignificar a sua história. No dizer de Jean Paul Sartre, o importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós. Portanto, pergunta-se: o que fizeram de nós? O que fazemos ou deixamos de fazer com o já feito?
Estas perguntas inspiradoras do autoexame impõem, de certa forma, um olhar para fora, para as relações sociais e de poder, para a cultura existente, nas quais estamos, irremediavelmente, inseridos, participando ativa e passivamente. A autocompreensão é perpassada pelo conhecimento da sociedade, da estrutura de poder, cultura na qual o indivíduo nasce, mora e namora. Parece-nos óbvio essa afirmação, mas é justamente o óbvio, ou melhor, a obviedade que pode atrofiar a nossa capacidade de ver o que as coisas são. O indivíduo, no seu dia a dia, está sujeito a perder-se de si mesmo. Isto significa uma das possibilidades que é deixar-se ser nomeado por outros. Pierre Bourdieu denomina de poder simbólico, o poder de nomear, o poder de dizer o que as coisas são. Não só as coisas, mas as pessoas, os povos e as nações são!
Somado a isso, é de uma experiência em sala de aula, ou melhor, de uma recordação dessa, que trata esse pequeno ensaio, realçando a possibilidade de vivenciar a Sociologia como uma forma de autocompreensão de si e do outro. Aqui, neste modesto ensaio, motivada por um concurso promovido pelo SINPRO-GO, senti-me inspirada a escrever uma memória afetiva de uma experiência da qual já não me lembrava mais, porém, guardada no fundo do baú da minha história de vida associada à docência.
Nesse contexto, um dos cursos em que ministrei Sociologia, por vários semestres, foi o de Psicologia. A disciplina era HGS 1431- Introdução às Ciências Sociais, composta por teorias, por conceitos de Sociologia e de Antropologia, ministrada para alunos, conhecidos, popularmente, por calouros, O Ano era 2003, contudo não me lembro mais o semestre. Primeira aula, expectativas, especulações rondavam nossas mentes, tanto dos alunos como da professora. Não sei bem o porquê, apesar de alguns quilômetros rodados em sala de aula, todo início de semestre, sentia-me na pele de uma professora caloura. Ficava emocionada e curiosíssima para ver os rostos de meus novos pupilos, chamava-os assim, carinhosa ou pretensiosamente. Risos.
Estava lá postada à frente, observando e aguardando a acomodação dos alunos em suas carteiras, para apresentar-me. Uma aluna veio em minha direção. Tinha os cabelos pintados de loiro, na altura dos ombros. Aproximou-se e disse: Professora, eu sou cega!
Confesso ter ficado chocada com sua autoidentificação. Todavia conversei com ela, perguntando-lhe qual era o seu nome. Houve um Silêncio. Perguntei-lhe novamente, e respondeu-me: Marina! Continuando, disse-lhe do meu prazer em conhecê-la, que era bem-vinda e a auxiliei a acomodar-se à carteira próxima a mim. Assim, no primeiro encontro, gostava de saber dos alunos, das suas expectativas, diagnosticando o senso comum sobre a Sociologia, a Universidade, o seu próprio curso. O senso comum era e é um ponto de partida da análise sociológica e das minhas aulas.
Com a minha mente sociologando a mil, entendia que a experiência com essa autoidentificação e apresentação de si, eu sou cega, era parte de uma percepção externa, social naturalizada e internalizada por ela. A naturalização dessa autopercepção teve um impacto inesperado em mim. Sentindo e refletindo, perguntava-me como devia usar essa situação como o primeiro mote para falar da Sociologia, e como trazer essa ciência, que amo, para iluminar a compreensão da existência dos preconceitos, dos estereótipos, das rotulações vividas como destino. Preocupava-me como converter uma condição de existência e de identificação específica, naturalizada de ser cega para uma perspectiva sociológica e como transformar a sala de aula numa aprendizagem do humano, pelas lentes da Sociologia! Aí surgia o meu grande desafio, naquele começo de semestre! Assim, poderia, na próxima aula, começar e implementar o programa! Sim! Afinal de contas, a receita estava pronta! Todavia, optei pelo desafio e pela angústia de fazer algo novo, diferente. Lembrei-me do poeta espanhol Antônio Machado: Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar.
Coloquei-me nesse lugar de caminhante, sentindo que essa situação de incômodo era o ponto de partida, a chave para fazer fluir o conteúdo e sua aprendizagem significativa para os meus pupilos, no sentido de uma nova percepção coletiva, de uma nova consciência de si, de sujeito que pode ressignificar a sua história individual e coletiva. Desde o início da minha carreira docente, e, antes, quando era professora do ensino médio, adorava usar as artes visuais, o cinema, a fotografia, as músicas ou a literatura articulados à ciência. Essa articulação entre artes e ciência, nunca foi pensada, meramente, como estratégia didática e sim como parte da formação humanística e cultural dos alunos. Acreditava nisso por experiência própria! Era preciso criar uma maneira sensível, respeitosa e acolhedora de abordar essa vivência particular de uma aluna, de um problema social e transformá-lo numa tradução sociológica, com arte.
Próximo encontro. Cheguei à sala de aula acompanhada de um funcionário responsável por transportar a TV e um aparelho de vídeo, num armário de madeira pintado de branco. Uma geringonça, da qual, agora escrevendo, traz-me saudades. Tudo pronto para a exibição de um material visual. Sou fã e amante de documentários brasileiros. Consegui um filme, em fita VHS, na outrora locadora maravilhosa, Cara Vídeo, hoje, inexistente! (Meu Deus! Só agora, escrevendo, dou-me conta de como o mundo mudou! (Videocassete! Fita VHS!)
Expliquei, brevemente, aos meus alunos, que iríamos assistir a um documentário brasileiro, Janela da Alma, dos diretores João Jardim e Walter Carvalho (2001). A inspiração desse documentário adveio da própria vivência de João Jardim, de sua miopia de alto grau e da reflexão dos impactos em sua vida. O filme traz o depoimento de 19 pessoas, à época, denominadas, portadoras de deficiência visual, hoje, pessoas com deficiência visual. Aborda os diferentes tipos de deficiência, como miopia, cegueira, a partir da ótica dos sujeitos, apreendendo na experiência de cada um, o significado e o impacto em sua vida, sua autopercepção, a percepção dos outros. Perfilam pessoas comuns e algumas mais conhecidas, entre as quais Hermeto Pascoal, Wim Wenders, José Saramago, Manoel de Barros.
Terminada a exibição, incentivei os alunos a expressarem sua interpretação e seus questionamentos. Não me lembro mais de suas falas ou da Marina. Ao final do semestre, ela escreveu-me uma carta onde expressava a gratidão e o reconhecimento da disciplina na mudança da sua autopercepção. Ela ganhou novos olhos de se ver, não mais reduzida e definida pela cegueira. Marina, abriu os olhos, ela se chamava Marina e isso fez toda a diferença!
Agora, aposentada há mais de seis anos da sala de aula, recordando e escrevendo um pouco do que retive na memória de minha experiência docente, sinto que valeu a pena. Valeu muito ter enfrentado medos, angústias e ousar romper com padrões impostos e naturalizados de se fazer Sociologia. Por onde passei, um ideal e uma paixão moviam-me e movem a querer fazer diferente, a sair e a pensar fora da caixa. Busquei fazer da sala de aula, um laboratório de aprendizagens do humano, de humanizar a sala de aula, para além dos papéis sociais estabelecidos de professor e de aluno. Ousei com Wright Mills, realizar a Imaginação Sociológica. Procurei dar às coisas, ao programa de disciplina e a tudo mais, a minha cara, e além de tudo isso, o meu coração!
