12.05.2026 POST Saúde MentalMuito se discute sobre saúde emocional dos estudantes — e com razão. Mas uma pergunta segue urgente nas instituições de ensino superior (IES): quem cuida de quem sustenta diariamente o funcionamento acadêmico?

Professores(as), tutores(as), pesquisadores(as), funcionários(as) e equipes de apoio convivem com jornadas intensas, metas crescentes, múltiplas demandas e, muitas vezes, pouco reconhecimento institucional. O resultado tem sido o avanço do adoecimento psíquico relacionado ao trabalho, especialmente no setor educacional.

Em maio de 2026, o tema ganha ainda mais relevância com a entrada em vigor da atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passa a exigir das organizações brasileiras — inclusive universidades e faculdades — a identificação e o gerenciamento dos chamados riscos psicossociais no ambiente laboral.

Brasil registra escalada do adoecimento mental no trabalho

O Brasil enfrenta um cenário crítico de afastamentos por transtornos mentais. Dados mais recentes do Ministério da Previdência Social indicam que os benefícios concedidos por ansiedade, depressão, síndrome de burnout e outros transtornos relacionados ao trabalho continuam em alta em 2025 e 2026, consolidando uma tendência de crescimento observada nos últimos anos.

No setor educacional, os impactos são especialmente preocupantes. Pesquisas recentes apontam aumento dos casos de exaustão emocional, ansiedade crônica e esgotamento entre docentes do ensino superior, impulsionados por fatores como:

-Sobrecarga de trabalho;
-Pressão por produtividade acadêmica;
-Cobrança por resultados institucionais;
-Excesso de burocracia;
-Insegurança contratual;
-Múltiplos vínculos empregatícios;
-Dificuldades de relacionamento e gestão.

Além do sofrimento humano, as consequências atingem diretamente o funcionamento das instituições: aumento do absenteísmo, crescimento da rotatividade de profissionais, queda de produtividade e prejuízos à qualidade da aprendizagem.

Estudos da Fundação Getulio Vargas (FGV) seguem demonstrando que o(a) Professor(a) permanece como um dos fatores intraescolares mais determinantes para o desempenho acadêmico dos(as) estudantes. No ensino superior, a lógica é semelhante: afastamentos frequentes impactam planejamento pedagógico, continuidade das disciplinas e desempenho institucional.

O que muda com a NR-1 em maio de 2026

A atualização da NR-1, promovida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), representa uma mudança significativa na forma como as empresas devem tratar a saúde mental no ambiente laboral.

A partir de maio de 2026, os riscos psicossociais passam oficialmente a integrar o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), tornando obrigatória sua identificação, prevenção, monitoramento e mitigação.

Na prática, isso significa reconhecer que fatores emocionais e organizacionais também podem adoecer trabalhadores e devem receber tratamento semelhante aos riscos físicos, químicos ou ergonômicos.

Entre os fatores psicossociais que precisarão ser avaliados pelas instituições estão:

-Pressão excessiva por metas e desempenho;
-Jornadas prolongadas e sobrecarga de tarefas;
-Assédio moral;
-Conflitos interpessoais;
-Falhas de comunicação institucional;
-Ausência de suporte organizacional;
-Ambientes de trabalho tóxicos;
-Insegurança ocupacional;
-Desgaste emocional contínuo.

O que antes frequentemente era tratado como problema individual passa agora a ser entendido como questão de saúde ocupacional e responsabilidade institucional.

Impactos diretos para Universidades e faculdades

Para se adequar à nova regulamentação, as IES precisarão rever processos internos e estruturar políticas permanentes de cuidado psicossocial.

Entre as principais medidas esperadas estão:

- Criação de comitês multidisciplinares

- As instituições tendem a ampliar a atuação integrada entre setores como Recursos Humanos, Segurança do Trabalho, Medicina Ocupacional, Psicologia, Jurídico e coordenações acadêmicas.

- Mapeamento de riscos psicossociais

- Será necessário identificar quais situações geram maior desgaste emocional entre docentes, pesquisadores(as) e equipes administrativas.

- Implementação de ações preventivas

Entre as estratégias mais discutidas estão:

- Canais de escuta e acolhimento;
- Programas de apoio psicológico;
- Capacitação de lideranças;
- Protocolos contra assédio;
- Revisão de metas e fluxos de trabalho;
- Flexibilização de carga horária;
- Incentivo ao equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
- Monitoramento contínuo

As instituições deverão acompanhar indicadores como afastamentos, licenças médicas, rotatividade, denúncias internas e níveis de satisfação das equipes.

Saúde mental deixa de ser tema secundário

Especialistas em saúde ocupacional avaliam que a atualização da NR-1 marca uma mudança cultural importante nas relações de trabalho no Brasil.

No ensino superior, onde a atividade intelectual é o principal ativo institucional, a tendência é que a saúde mental passe a integrar de forma mais estratégica os modelos de gestão acadêmica.

Além de reduzir riscos trabalhistas e previdenciários, ambientes organizacionais mais saudáveis tendem a melhorar engajamento, produtividade, retenção de talentos e qualidade das relações pedagógicas.

Para as universidades e faculdades, o desafio agora não é apenas cumprir uma exigência legal, mas construir ambientes mais humanos, sustentáveis e compatíveis com as novas demandas do mundo do trabalho.

Em um cenário de aumento dos casos de ansiedade, depressão e burnout, cuidar da saúde mental dos profissionais da educação deixou de ser diferencial institucional — e passou a ser necessidade urgente.

Fonte: Portal Desafios da Educação e FGV


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